Chuva. Lá estava tudo, exatamente como no dia anterior. Mas nada era igual... Alguma coisa mudara, se não no modo como as coisas estavam, no modo de ver como elas eram.
O sabor da juventude ainda pulsava no peito, sendo uma das poucas coisas que lembravam que ali existia um coração, ou pelo menos o que fora um coração. Concentração. Ainda havia alguma coisa ali, era um coração, com certeza, embora não fosse o coração como se lembrava dele.
Uma juventude que eterna, jazia ali, e ainda assim, perdera-se havia muito tempo, ou tanto tempo quanto pode ser uma noite. Às vezes, pode ser eterna, e no entanto acabar em apenas alguns segundos. Tudo confuso, embora de alguma maneira, claro e objetivo como o dia ensolarado, em manhãs de primavera, com as quais sonhava, embora como um borrão distante.
Sabia que tinha todo o tempo do mundo naquela noite, e nas outras, um rápido lampejo de eternidade. Era inocente. Talvez nunca tenha sido. Aquele sangue, queria dizer alguma coisa. Um misto de horror e de prazer inebriante ao atentar para todo aquele sangue, que não era muito. A parte que ainda existia do antigo N... não, não usaria mais aquele nome, passado, estrangeiro, e ainda assim essência intrínseca de tudo que era, mas dizia que ele era agora um monstro. A nova parte que nascera, horas antes, concordava, não havia conflito no definir, somente no sentir-se em relação a isso. O velho sentimento era de repulsa a si próprio. O novo, de satisfação quase diabólica ao pensar no sabor do vermelho líquido, símbolo e fonte de vida, agora mais que nunca.
O que era agora? Definitivamente, não sabia, e não importava. A repugnância e a satisfação que sentia em ser já bastavam para que apenas pensasse em um meio de seguir adiante. Não deveria ser tão difícil, apenas tinha de abandonar tudo o que conhecia e tinha... Lentamente, o corpo esboça então a primeira reação em horas... Limpar tudo, arrumar o velho candelabro, que juntara nas imediações do castelo, depois que Lord Tatchford tivera um pequeno desgosto em relação ao mesmo. Era bonito, brilhante, fino, destoava um pouco do cenário de um casebre simples, um pouco afastado, do pastor e responsável pela integridade do rebanho do Lord, mas ainda assim, ele parecia estar exatamente onde deveria. Essa noite, os lobos, se fossem espertos, teriam sua fome saciada com fartura. Fome... isso lembrava algo de algumas horas atrás... Lobo, isso também era coisa de poucas horas atrás... Pelo fresto bojudo na parede, em que passava seu braço, viu a lua, cheia, em seu esplendor. Sentiu um calafrio de prazer e pavor... quando voltou a si, a casa estava arrumada, o sangue e os corpos já apenas memória... Era hora de partir. Era perigoso ficar ali agora. Era inocente, de certo ponto de vista, mas não seria, não aos olhos dos inquisidores, principalmente seu líder, amigo de Lord Tatcher, e sabia que os sacerdotes viriam pela manhã, precisavam de soldados, em uma cruzada santa, uma cruzada que ele não era apto a fazer. Não mais.
Olhou com atenção ao seu redor, memorizou cada detalhe e guardou, no fundo de sua mente. Não era tolo, não era covarde, não sabia o que era, mas tinha uma clara certeza de como o era. A lua... o pasto, as ovelhas assustadas, os cães acuados, encolhidos. Um deles rosna, mas basta um olhar, e tudo volta ao silêncio. Vai amanhecer em algumas horas. A floresta à frente parece uma boa opção para não chamar a atenção, e por alguma razão, é um ambiente atraente. E assim, tem-se os primeiros passos rumo a lugar algum, por alguma razão que razão nenhuma pode explanar, mas que é, e sendo, tem de ser... Confuso... demais para um adolescente, por isso é melhor não se preocupar com isso. O bosque é escuro.... sangue, necessidade de ver, um esforço sobrenatural pra ver... E a noite se torna clara... com um leve tom avermelhado, mas clara tal qual o dia, e o pasto fica para trás, assim como os dias felizes (seriam mesmo? não tinha certeza, mas era assim que os trovadores entoavam canções, era o roteiro que mais fazia sentido, no momento). Mas não as lembranças... Amanheceria em algumas horas, não era tempo de pensar... E a floresta adentro, move-se um vulto, silencioso, cheio de incertezas, resoluto. Apenas esperando o próximo anoitecer...
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